terça-feira, 8 de abril de 2008



Especialmente para quem visita o meu blogue e já há algum tempo não encontra novidades.
Esta história foi retirada do final do livro "Amar de olhos abertos", o último que li.
Espero que gostem e que tirem conclusões positivas. Muitas vezes nós somos como um cântaro rachado...

Era uma vez, num povoado muito pequeno, um homem que trabalhava como aguadeiro. Por aquela época, a água não saia pelas torneiras, mas estava no fundo dos poços profundos ou no caudal dos rios. Se não houvesse poços abertos perto do povoado, aquele que não quisesse ir buscar água pessoalmente deveria comprá-la a um dos aguadeiros que, com grandes cântaros, iam e voltavam ao povoado com o precioso líquido.
Uma manhã, um dos cântaros rachou e começou a perder água pelo caminho. Ao chegar ao povoado, os compradores pagaram-lhe as habituais dez moedas pelo cântaro da direita, mas apenas cinco pelo conteúdo do outro que mal chegava a metade.
Comprar um cântaro novo era demasiado caro para o aguadeiro. Por isso, decidiu que devia apressar o passo para compensar a diferença de dinheiro que recebia.
Durante dois anos o homem continuou a ir e a vir em passo firme, levando água ao povoado e recebendo as suas quinze moedas como paga por um cântaro e meio de água.
Uma noite foi despertado por um «pst» na sua casa:
- Psssst… Psssst…
- Quem anda aí? – perguntou o homem.
- Sou eu – disse uma voz que saia do cântaro rachado
- Porque me acordas a estas horas?
- Suponho que se te falasse de dia e em plena luz, o susto impedir-te-ia de me ouvir. E preciso que me ouças.
- Que queres?
- Quero pedir que me perdoes. Não foi culpa minha a fenda por onde a água escoa, mas sei o quanto te prejudiquei. A cada dia, quando chegas ao povoado cansado e recebes pelo meu conteúdo metado do que recebes pelo do meu irmão, tenho vontade de chorar. Eu sei que me devias ter trocado por um cântaro novo e atirado-me fora. E, no entanto, mantiveste-me ao teu lado. Quero agradecer-to e pedir-te mais uma vez que me desculpes.
- É engraçado que me peças desculpas – disse o aguadeiro. – Amanhã, bem cedo, sairemos junto tu e eu. Quero mostrar-te uma coisa.
O aguadeiro continuou a dormir até à alvorada. Quando o sol assomou no horizonte, agarrou a vasilha rachada e foi com ela ao rio.
- Olha – disse ele ao chegar, apontando para a cidade. – O que é que estás a ver=
- A cidade – disse a vasilha.
- E que mais? – perguntou o homem.
- Não sei… O caminho – respondeu a vasilha.
- Exacto. Olha para os dois lados da vereda. O que é que estás a ver?
- Vejo a terra seca e o cascalho do lado direito e os canteiros de flores do lado esquerdo – disse a vasilha que não entendia o que o seu dono lhe queria mostrar.
- Durante muitos anos percorri este caminho triste e solitário, levando a água até ao povoado e recebendo a mesma quantidade de moedas por ambos os cântaros… Mas um dia notei que te tinhas rachado e que perdias água. Eu não podia trocar-te, por isso tomei uma decisão: comprei sementes de flores de todas as cores e semeei-as de ambos os lados do caminho. Em cada viagem que fazia, a água que derramavas regava o lado esquerdo da vereda e, nestes dois anos, conseguis-te criar esta diferença.
O aguadeiro fez uma pausa e, acariciando a sua leal vasilha, disse-lhe:
- E estás a pedir-me desculpa? Que importam algumas moedas a menos se graças a ti e à tua fenda as cores das flores me alegram o caminho? Sou eu que devo agradecer o teu afecto.

2 comentários:

Moonlight disse...

Bem...é de ficar sem palavras! Só prova que não devemos mesmo desistir e persistir no nosso caminho! E que muitos outros se podem ir abrindo mesmo quando não damos por isso!
Muito deep! Gracias

Filipa disse...

Apenas uma palavra...Excelente!!!